Mercado SãoJoão
— desde 1894 —

Esta história começa em Junho de 1894, nos festejos de São João de Braga, as maiores realizadas à data em todo o reino, em parte graças à organização da recém criada Comissão de Festas de São João, que unia as festas de São João do Souto e São João da Ponte. Na Rua de São João, enquanto via passar a procissão à volta da Sé, António Joaquim Cardoso abria as portas da sua mercearia, sem poder imaginar que mais de um século depois, a mesma subsistiria, firme e fiel a Braga, pelas mãos de uma linhagem de mestres merceeiros, na passagem de um testemunho que teria no seu cerne, o bacalhau.
 
Quem governava era o progressista José Luciano de Castro, vulgo “A Velha Raposa”, na ressalva do ultimato inglês que pôs fim às pretensões portuguesas de ligar o Atlântico Sul ao Índico. Eram tempos difíceis, mas longe dos anos amargos que marcariam o novo século, quando na Segunda Grande Guerra e em plena ditadura, já sob a gerência do anterior empregado José Joaquim Macedo, a mercearia serviria o propósito, tão nobre quanto controverso, de aprovisionar os habitantes de Braga a troco de senhas fornecidas pelas Comissões Reguladoras do Comércio Local.
 
Popularizou-se a tão conhecida expressão “sardinha para três” e tornou-se sinal de inteligência preferir o rabo da mesma. Recordam-se os mais velhos das grandes filas, com horas de espera, para recolher a casa uma arroba de batatas e meio quartilho de azeite, que deveriam durar no mínimo um mês. No fim do dia, eram os pequenos aprendizes do comércio quem regressavam às numerosas famílias, com um troço de chouriça embrulhada em papel jornal, passado à socapa pelo próprio patrão, depois de carregarem no costado fininho, largas dezenas de sacas de arroz com o dobro do seu peso. Outros tempos, mas assim se fez toda uma geração.
 
Foi por volta dessa altura, com a grande aventura da Frota Branca, promovida pelo Estado Novo e sob o escrutínio atento do patrão das pescas Henrique Tenreiro, que o Bacalhau se tornou tema central da vida dos portugueses. Para a mercearia da Rua São João, entretanto batizada “São João” pelos locais, o interesse no bacalhau despertou a vocação da casa, que se viria a tornar numa referência nacional na especialização do comércio deste produto. Durante a década de 50, sob a gerência de José Araújo, também ele antigo funcionário, a mercearia ganhou a reputação de ter o melhor bacalhau que se podia encontrar no Minho. Mas essa fama estava longe do seu verdadeiro potencial. Em 1967, com o fim do protecionismo do comércio do bacalhau, abriram-se as portas à importação com afluência de oferta mais diversificada que, José Araújo, soube empregar para fortalecer a especialização da casa. Assim passou a falar-se de bacalhau da Islândia, da Noruega, do Canadá e do tão apetecido e requisitado bacalhau Inglês (cura amarela), hoje a vinte euros o quilo.
 
Quem encontramos hoje a cortar as postas e a pesar a mercadoria é Manuel Machado, menino merceeiro de vocação, nascido e crescido em Braga, que conta com mais de seis décadas na labuta, a servir do bom e do melhor aos vizinhos e fregueses. Juntou-se à história da casa, após 25 anos de experiência ganha na Mercearia Costa & Vieira, através do sobrinho de José Araújo, Jacinto Vilaça, com quem firmou sociedade após o Sr. Araújo ter entrado na reforma. Juntos, tornaram-se lenda em Braga e um fenómeno mediático em Portugal, por via de merecidas referências à capacidade de inovação desta dupla, que lançou o primeiro site de mercearia local no país e chegou a levar o bacalhau às festividades romanas do município.
 
Uma casa cheia e farta, que recebe fregueses dos quatro cantos do mundo, atraídos pelo Bacalhau, comprado com quatro meses de antecedência para uma maior secagem, mas não só. Como digna mercearia portuguesa que se preze, carrega nas suas centenárias prateleiras as finas conservas, como o Atum Catraio, Minerva, Pinhais e Good Boy. Conta também com uma incrível garrafeira, repleta de líquidos raros e preciosos, como a Aguardente  Bagaceira Velha de 1974, a Companhia velha de 1970, o Licor Eduardino, vinho de São João de Anadia ou a mítica Ginja sem Rival de Lisboa. Durante a consoada, o bacalhau sai às centenas enquanto na entrada, ergue-se um dos ex-libris da casa, a famosa árvore de natal de bacalhaus, um fenómeno mediático que os bracarenses bem conhecem. Não menos conhecido é o evento que enche a Rua São João, na véspera de Natal, com uma tradição que começou na Casa das Bananas - das 17H00 às 20H00 os bracarenses comem bananas e bebem moscatel servido pelas mãos do nosso criativo e dinâmico merceeiro.
 
Em 2014, sai da sociedade Jacinto Vilaça, ficando até aos dias de hoje o Sr. Manuel sozinho à frente da Mercado São João. No balcão principal ainda se encontram os dispensadores de azeite e petróleo, o moinho de café e a tradicional balança,  tal e qual como no passado. Um pouco mais acima, na última prateleira, três caixas de chá nacional em chapa, ilustradas com motivos exóticos; porventura dos últimos exemplares existentes, que como nos informa Manuel Machado — “não estão para venda.”
 
Resta dizer que este dedicado merceeiro leva a paixão pelo bacalhau muito a sério, de tal forma que acabou mesmo por viajar ao Canadá, não uma mas duas vezes, para “perceber melhor a pesca” desta tão apreciada, senão mesmo amada, iguaria portuguesa. No entanto, nada do que foi dito faz juz a esta casa, até porque a história apenas alimenta a memória e o bacalhau a barriga, deixando de fora o mais importante, a alma. Mas o leitor que não desespere, pois todo o merceeiro tem uma certa poesia, que como todos os versos, faz florescer em nós um pouco da nossa própria humanidade.  
Mercado SãoJoão

 

2018-08-23T14:33:46+00:00